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Galileu - https://revistagalileu.globo.com/Ciencia
24/08/2018
Projeto une saberes tradicionais e ciencia na conservacao da Amazonia

Projeto une saberes tradicionais e ciência na conservação da Amazônia
Parceria entre IPE e ICMBio, iniciativa inclui povos da floresta no monitoramento da biodiversidade em unidades de conservação

A Terra vive hoje uma era de extinção em massa. Naturalmente, espécies de aves e mamíferos desaparecem a uma velocidade de 0,003 por ano. Hoje essa taxa é de uma espécie por ano. Trezentas vezes mais rápido. Se for olhar para todas as espécies, incluindo as vegetais, a estimativa é que a velocidade do extermínio seja mil vezes maior.
Os números, embora impactantes, só confirmam aquilo que se torna cada vez mais claro: é preciso preservar a natureza. Sistemas naturais prestam diversos serviços ecossistêmicos que garantem nosso meio de vida, como na água das cidades. Esse entendimento motivou a criação de 2.201 unidades de conservação no território brasileiro, cobrindo uma área de pouco mais de 2,5 milhões de km², sendo 28% na Amazônia.
Boa parte desse território habitado há milênios por povos tradicionais, que aprenderam a estabelecer uma relação de troca com a floresta em que todos ganham. "Não é uma conservação intocada, nos moldes que foi importado de outros países para se implementar no país", afirma Cristina Tófoli, gerente de projetos do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE).
"Algumas pessoas ainda têm essa ideia muito forte de que a natureza tem que ser só para os animais e as plantas. Os outros primatas, não a gente. Mas se a gente for observar os lugares em que as pessoas estão envolvidas com a preservação do seu território, da sua área, é onde está mais preservado", completou.
Embora em 1.503 dessas áreas de conservação, com 1,8 milhões de km², esteja previsto algum nível de atividade humana. Exemplos como do Vale do Ribeira, em São Paulo, mostram que na maioria das vezes existe um abismo entre quem vive da floresta e os gestores das unidades de conservação.
Uma falta de entendimento que dificulta a manutenção das tradições, e, sem elas, fica difícil manter o modo de vida. O que gera uma fuga para as cidades ou modos menos tradicionais de subsistência, como a monocultura e a pecuária, com impactos no meio ambiente.
O projeto de monitoramento do IPE, em parceria com o Instituto Chico Mendes (ICMbio), está buscando mostrar o caminho dessa aproximação que, em pouco tempo, já demonstrou ser benéfica para todos os lados.
O monitoramento
Os habitantes da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, no Acre, dependem da colheita da castanha-da-amazônia para sobreviver. Mas será que que a quantidade extraída resulta na diminuição da produção dos frutos? É esse tipo de resposta que busca o monitoramento. "É como um termômetro que vai acompanhando a febre do paciente", exemplifica o livro "Monitoramento Participativo da BIodiversidade - aprendizado em evolução: a teoria na prática", que Tófoli participou do desenvolvimento.
Por muitos anos esse monitoramento foi feito por pesquisadores, que verificam o quanto a biodiversidade está mudando e propõem soluções para um melhor manejo ambiental. No entanto, esse método é repleto de lacunas, principalmente por não considerar outros tipos de conhecimentos que não o científico.
De acordo com a publicação, apenas na Floresta Amazônica já foram catalogados mais de 2 milhões de espécies de insetos, 40 mil de plantas, 3 mil de peixes, quase 1.300 aves e mais de 400 mamíferos. "Ou seja, mesmo que todos os pesquisadores do mundo resolvessem monitorar a biodiversidade juntos, seria como montar um quebra-cabeças de milhares de peças dentro de um quarto escuro."
"A academia tem resistência com o processo de coleta participativa porque acreditam que vão fazer tudo errado. Que não tem o rigor científico", afirma Tófoli. Assim, conhecimento milenar é desperdiçado.
Um estudo mostra que em 2012, 32 iniciativas de monitoramento de biodiversidade no Brasil contavam com a ajuda de comunidades indígenas ou populações tradicionais. Vinte e sete dessas dentro de UC ou terras indígenas. Em apenas 9% dessas, porém, tinham algum papel de liderança.
Foi em 2013 que o IPE iniciou as conversas com o ICMBio para complementar seu processo de monitoramento com a participação social. Inicialmente, começaram a implementação em sete unidades de conservação, na qual, depois de diversas conversas com as comunidades, definiram quatro focos de monitoramento: a castanha, quelônios aquáticos (consumo de tartarugas aquáticas), caça de subsistência, monitoramento de mamíferos e aves de grande porte em áreas de manejo de madeira e a pesca do tucunaré.
As comunidades passam por um processo de capacitação para a coleta de dados, mas tem voz ativa em todas as etapas do projeto. "Não tem isso de só passar a informação para eles. A gente leva os dados e, junto com pesquisadores, instituições locais, são analisados junto com a comunidade", conta Tófoli. "A apropriação da informação é importante para aplicarem no cotidiano. Não para ser usado só na academia ou gestores".
Segundo o que viu nas experiências, essa aproximação do território faz com que as pessoas se percebam como agentes da conservação. "Eles nem sabem da importância do que fazem na Amazônia, no seu canto, para a chuva que chega aqui em São Paulo", diz. "Se eles não estão fortalecidos na informação e participação, fica mais fácil quererem desmatar, vender suas terras deles. É uma coisa que a gente vê bastante por falta de valorização. Porque o meio de vida deles não é valorizado", completa.
Hoje o projeto já se expandiu para atuar em 17 Unidades de Conservação. "Os gestores estão reconhecendo a importância da participação no monitoramento pois é uma oportunidade para eles participarem da vida na unidade de conservação. Assim, a visão deles mudou". Uma troca entre saberes tradicionais e a ciência em que ganha o meio ambiente.

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