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FSP, Ciencia, p. B7
31/08/2017
E complicado controlar efeitos da atividade extrativista

É complicado controlar efeitos da atividade extrativista

A Renca (Reserva Nacional de Cobre e Associados) é uma criação do regime militar que governou o país até meados dos anos 1980. Desde o princípio, foi estabelecida não como área de proteção ambiental, mas como uma espécie de monopólio do Estado sobre a futura exploração de minérios na região -a intenção era proteger recursos minerais estratégicos, e não a floresta. O que explica, portanto, a preocupação de ambientalistas com o destino da área?

O primeiro ponto é a sobreposição do território da reserva -mais de 46 mil quilômetros quadrados, equivalente a todo o Estado do Espírito Santo- com oito UCs (unidades de conservação, essas sim destinadas à preservação ambiental) e duas terras indígenas, pertencentes respectivamente aos povos wajãpi (que falam uma língua da família tupi-guarani) e aparai e wayana (ligados ao grupo linguístico caribe).
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Entre as UCs se destacam a Floresta Estadual do Paru, maior área protegida do país, e o Parque Nacional Montanhas do Tucumaque, recordista em tamanho entre as áreas sob proteção federal no Brasil. Algumas dessas unidades são de preservação permanente e, portanto, não permitem, por lei, nenhuma forma de uso agrícola ou extrativista do território, enquanto outras são de uso sustentável, o que viabiliza, em tese, a exploração econômica.

Em segundo lugar, embora um comunicado da Presidência da República tenha afirmado que a Renca "não é um paraíso, como querem fazer parecer, erroneamente, alguns", apontando problemas como a contaminação de cursos d'água com o mercúrio de garimpos clandestinos, dados do próprio governo sugerem que a região ainda é relativamente intocada.

Documentos do Ministério do Meio Ambiente datados de junho deste ano, obtidos pela ONG Observatório do Clima, afirmam que apenas uma fração mínima da área da Renca foi desmatada até hoje, e que as lavras de garimpeiros que existem são antigas e de pequena escala. Segundo o ministério, a abertura da área à exploração poderia desencadear o surgimento de "uma nova frente de conversão em áreas que ainda não foram alteradas de forma significativa".

Os recursos minerais que justificariam essa exploração são consideráveis. Além do cobre que empresta seu nome à reserva, há jazidas de ouro, platina, ferro, manganês, níquel e ainda metais mais raros, como o nióbio (importante para ligas usadas em jatos e foguetes) e o molibdênio (também comum em ligas de aço muito resistentes).

Não é trivial, no entanto, realizar a exploração de minérios em grande escala com impacto ambiental relativamente baixo. Há ainda a preocupação com uma espécie de efeito-dominó que tem sido comum em contextos similares na Amazônia.

O crescimento rápido da atividade econômica extrativa em locais até então relativamente intocados cria um ciclo de aumento populacional (via migração de outros centos, em busca de emprego), crescimento rápido da infraestrutura (o que multiplica o desmatamento e os efeitos sobre os rios) e violência no campo e contra a população indígena (causada por disputas por terra entre a população que acaba de chegar à região).

FSP, 31/08/2017, Ciência, p. B7

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