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10/09/2018
Ambientalistas questionam estudo sobre floresta nativa na Escarpa Devoniana

Ambientalistas questionam estudo sobre floresta nativa na Escarpa Devoniana
10 de setembro de 2018, 08:23

Mariana Ohde

Um estudo realizado pela Embrapa Territorial, a pedido da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), mostrou que a área ocupada por florestas classificadas como "nativas" na Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana, no Paraná, ganhou mais de três mil hectares entre 2008 e 2017.

Nesse período, segundo os dados, a relação entre áreas ocupadas por matas e áreas com outros usos - agricultura, pastagens, reflorestamento etc - manteve-se em equilíbrio. As florestas nativas cobriam 30,08% da região em 2008 e 30,62% em 2017, segundo a Embrapa Territorial.

Ambientalistas, porém, questionam os dados, segundo Átila Santana, geógrafo do Laboratório de Mecanização Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e parceiro do Observatório de Justiça e Conservação (OC&J).

"O maior problema da APA não é com florestas", explica. "A gente tem a questão dos campos naturais, essa sim é a que pega". Segundo o geógrafo, a vegetação que corre risco, no local, é a chamada estepe gramíneo lenhosa - que compreende os campos úmidos, que sofrem, hoje, um processo de drenagem com posterior plantio e reflorestamento com espécies exóticas, o que causa a perda da água e biodiversidade associadas a esses ambientes.

Átila afirma que há várias situações, por exemplo, de campos naturais em que foram plantados eucaliptos e pinus. "Isso, quando você faz uma análise de cobertura florestal, claro que vai dar maior. Talvez, o incremento do qual eles estão falando seja esse", disse. Para o geógrafo, é nítido o crescimento da floresta, mas não da floresta "certa".

"Teve um incremento, sim, de floresta, mas essa floresta não é nativa. E os campos naturais, que são o principal objeto de conservação da APA, estão, sim, sendo sistematicamente mecanizados, substituídos por florestas exóticas. A floresta é exótica, ela não é natural".

Outra incoerência, segundo o pesquisador, é a forma de mapeamento dessas áreas. Segundo a Embrapa, a análise comparou imagens de satélite Landsat 8 dos dias 28 de maio de 2008 e 15 de novembro de 2017. Porém, segundo Átila, o satélite Landsat 8 foi lançado apenas em 2013 - desse modo, o período de abrangência do estudo seria questionável. "É uma incoerência, na minha opinião, muito grande", lamenta.

No trabalho da Embrapa, os pesquisadores separaram as áreas de florestas que classificaram como "nativas" das que classificaram como "outros" e identificaram um aumento das primeiras. Depois, município a município, eles identificaram áreas que estavam ocupadas por florestas em 2008 e não estavam mais em 2017, assim como espaços antes enquadrados como "outros" que passaram a apresentar mata.

No balanço, segundo a Embrapa, o volume de terras regeneradas compensa as novas aberturas de área. "Mesmo que haja um movimento de desmatamento e regeneração, quando você faz uma análise macro, observa que há um equilíbrio", concluiu o pesquisador da Embrapa Rogério Resende.

Escarpa Devoniana
A Escarpa Devoniana é uma faixa com terreno elevado, que se estende do nordeste paranaense, na divisa com São Paulo, até o Rio Iguaçu, quase chegando aos limites de Santa Catarina. Nas bordas a Leste e a Oeste, é caracterizada por grandes paredões rochosos, que delimitam o primeiro e o segundo planalto do Paraná.

A APA da região compreende áreas de 12 municípios: Balsa Nova, Campo Largo, Carambeí, Castro, Jaguariaíva, Lapa, Palmeira, Piraí do Sul, Ponta Grossa, Porto Amazona, Sengés e Tibagi.

Ao longo da história, a agricultura se desenvolveu como atividade tradicional na região. "Essa área era passagem da boiada do Rio Grande do Sul para São Paulo, desde o século XIX", lembra o pesquisador da Embrapa Territorial Ângelo Mansur Mendes.

As principais atividades, hoje, na área rural da região, são o cultivo da soja, do trigo e de verduras e legumes - os dos últimos para abastecer a capital Curitiba e municípios do entorno. A região foi pioneira na adoção do plantio direto, técnica conservacionista atualmente muito utilizada no Brasil, que reduz drasticamente a erosão do solo.

Projeto de redução
Na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), um projeto que tem o objetivo de reduzir em cerca de 70% a área da APA está, atualmente, parado na Comissão de Meio Ambiente. A votação foi adiada, por hora, após um movimento popular contra a redução.

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